Termos relacionados
Resumo
O artigo explica por que grandes empresas brasileiras e multinacionais passaram a exigir inventário de carbono de seus fornecedores, e como Pequenas e Médias Empresas (PMEs) devem responder. A pressão decorre de três forças regulatórias convergentes: a Resolução CVM 193/2023 (que exige divulgação de Escopo 3 de companhias abertas via IFRS S2), o SBCE (Lei 15.042/2024) e o CDP Supply Chain Program. Emissões de Escopo 3 representam em média 75% das emissões totais de uma empresa, segundo o CDP (2023), tornando dados de fornecedores indispensáveis. O artigo detalha três níveis de exigência prática, um passo a passo para inventário simplificado (Escopos 1 e 2) com custo estimado de R$ 8.000 a R$ 25.000, e os benefícios competitivos além da obrigação comercial. Destinado a gestores de operações e sustentabilidade em PMEs com 50 a 300 funcionários.
Sua empresa recebeu um e-mail do departamento de sustentabilidade de um grande cliente pedindo dados de emissões de carbono. Se isso já aconteceu — ou se você sabe que vai acontecer — este artigo é para você. Dentro do universo de inventário de carbono, a pressão sobre fornecedores e o tema que mais cresce em 2025, e ignorar essa demanda pode custar contratos.
Emissões de Escopo 3 (Outras Emissões Indiretas) representam em média 75% das emissões totais de uma empresa, segundo o CDP (2023). Isso significa que nenhuma grande empresa consegue cumprir suas metas climáticas sem dados dos fornecedores. A cobrança não é capricho — e estrutural. Este artigo explica por que isso está acontecendo, o que exatamente o contratante espera de você e como montar um inventário de carbono para fornecedor de forma simplificada e acessível.
Obrigação comercial, não legal. A obrigação de fornecer dados de emissões como fornecedor e, na maioria dos casos, comercial e contratual — não legal. A legislação brasileira (SBCE, CVM 193) obriga diretamente grandes empresas e companhias abertas, que por sua vez transferem a demanda para seus fornecedores.
Por que grandes empresas cobram inventário de carbono dos fornecedores
Grandes empresas cobram inventário de carbono de fornecedores porque três forças regulatórias convergentes as obrigam a reportar emissões de Escopo 3 — a cadeia de valor. A Resolução CVM 193/2023 exige IFRS S2 de companhias abertas, o SBCE (Lei 15.042/2024) regulará empresas industriais, e o CDP Supply Chain Program mobiliza cadeias globais.
Key takeaway: A demanda por dados de emissões de fornecedores não é tendência — é obrigação regulatória dos seus clientes, que será transferida contratualmente.
Emissões de GEE que ocorrem na cadeia de valor da empresa, mas fora do seu controle direto. Abrange 15 categorias: deslocamento de funcionários, transporte de produtos, resíduos gerados, bens adquiridos, investimentos, entre outros. Representa tipicamente 70-90% da pegada de carbono total de uma empresa, mas é o escopo mais complexo de medir.
A resposta curta: porque precisam. A resposta completa envolve três forças regulatórias convergentes que pressionam grandes empresas a mapear emissões de toda a cadeia de valor.
1. CVM 193/2023 e IFRS S2: A Resolução CVM 193/2023 obriga companhias abertas brasileiras a adotar os padrões IFRS S1 e S2 (International Financial Reporting Standards — Sustentabilidade) a partir do exercício 2026. O IFRS S2 (paragrafo 29) exige divulgação de emissões de Escopo 3 — ou seja, as emissões da cadeia de suprimentos. Aproximadamente 400 companhias listadas na B3 serão afetadas, segundo B3 (2024), e cada uma delas tem dezenas a centenas de fornecedores.
2. SBCE (Lei 15.042/2024): O mercado regulado de carbono brasileiro regulará aproximadamente 5.000 empresas industriais, segundo o Ministério da Fazenda (2024). Cada empresa regulada precisara de dados de emissões de seus fornecedores para cumprir obrigações de reporte.
3. CDP Supply Chain Program: Mais de 23.000 empresas já reportaram dados ambientais ao CDP em 2023, incluindo cadeia de suprimentos. Empresas brasileiras já estão sendo solicitadas por clientes globais via esse programa.
A tendência e inequivoca: 72% dos compradores corporativos globais consideram performance ESG (Ambiental, Social e Governança) na seleção de fornecedores, segundo EcoVadis (2023). O inventário de emissões está se tornando critério de seleção — não diferencial.
Escopo 3 como driver da pressão sobre fornecedores
O Escopo 3 do GHG Protocol abrange 15 categorias de emissões indiretas na cadeia de valor, representando tipicamente 70-90% das emissões totais de uma empresa. A Categoria 1 — Bens e Serviços Adquiridos — é a principal responsável pela pressão sobre fornecedores, pois as emissões de produção dos insumos comprados contam como Escopo 3 do comprador.
Key takeaway: Sem dados de emissões dos fornecedores, nenhuma grande empresa consegue reportar Escopo 3 completo nem cumprir metas climáticas.
Padrão internacional mais utilizado para contábilização e reporte de emissões de gases de efeito estufa. Desenvolvido pelo WRI e WBCSD, define os princípios de relevância, integralidade, consistência, transparência e exatidão. No Brasil, o Programa Brasileiro GHG Protocol é gerido pela FGVces e pública o Registro Público de Emissões anualmente.
Para entender por que você recebeu aquele e-mail, é preciso entender o que é o Escopo 3 do GHG Protocol (Protocolo de Gases de Efeito Estufa).
O GHG Protocol divide as emissões de uma empresa em três escopos:
| Escopo | O que mede | Exemplo |
|---|---|---|
| Escopo 1 (Emissões Diretas) | Emissões diretas da empresa | Combustao em veículos e caldeiras próprias |
| Escopo 2 (Emissões Indiretas de Energia) | Emissões da energia comprada | Eletricidade consumida pela fabrica |
| Escopo 3 (Outras Emissões Indiretas) | Emissões da cadeia de valor | Produção de insumos comprados, transporte, resíduos |
O Escopo 3 tem 15 categorias, definidas pelo GHG Protocol Corporate Value Chain Standard (WRI/WBCSD, 2011). A Categoria 1 — Bens e Serviços Adquiridos é a principal responsável pela pressão sobre fornecedores. Quando uma grande empresa compra matérias-primas, componentes ou serviços, as emissões da produção desses itens contam como Escopo 3 dela.
Como Escopo 3 representa a maior parcela das emissões totais, grandes empresas simplesmente não conseguem reportar de forma completa — nem cumprir metas de redução — sem dados de quem fornece para elas.
SBCE ampliará a pressão. O SBCE (Lei 15.042/2024) está pendente de regulamentação. Quando operacional, a pressão sobre fornecedores de empresas reguladas se intensificará — passando de demanda comercial para demanda também regulatória. Acompanhe atualizações.
O que o contratante exige do fornecedor na prática
A exigência de dados varia em três níveis progressivos: Nível 1 (questionário básico com consumo de energia, combustíveis e frota), Nível 2 (emissões estruturadas em tCO2e com metodologia documentada) e Nível 3 (inventário GEE verificado é publicado no Registro Público do Programa Brasileiro GHG Protocol). A maioria dos clientes começa pelo Nível 1 ou 2.
Key takeaway: A maioria dos grandes clientes aceita dados básicos de consumo como primeiro passo — não é necessário começar com inventário verificado.
A cobrança varia conforme o nível de maturidade ESG do contratante, mas geralmente segue uma escala progressiva:
Nível 1 — Questionário básico
- Consumo anual de energia elétrica (MWh)
- Consumo anual de combustíveis (litros ou m3 por tipo)
- Frota própria (quantidade e tipo de veículos)
- Volume de resíduos gerados
Nível 2 — Dados estruturados de emissões
- Emissões de Escopo 1 e 2 em tCO2e (toneladas de CO2 equivalente)
- Metodologia de cálculo utilizada
- Período de referência
- Fator de emissão aplicado (fonte: MCTI para eletricidade; GHG Protocol para combustíveis)
Nível 3 — Inventário verificado
- Inventário de Emissões de GEE completo publicado no Registro Público do Programa Brasileiro GHG Protocol
- Verificação por terceira parte (categoria Ouro)
- Metas de redução documentadas
A maioria dos grandes clientes começa pelo Nível 1 ou 2. O Nível 3 é exigido por empresas com programas ESG mais maduros ou que respondem ao CDP.
Como fazer um inventário simplificado de carbono
Um inventário simplificado de carbono cobre Escopos 1 e 2, utiliza dados já disponíveis na empresa (contas de energia e notas fiscais de combustíveis) e pode ser concluido em quatro a oito semanas. O Programa Brasileiro GHG Protocol oferece ferramenta gratuita de cálculo e aceita inventários Bronze como ponto de partida válido para PMEs.
Key takeaway: PMEs com operações simples podem completar o inventário em 4-8 semanas usando a ferramenta gratuita do GHG Protocol e dados que já possuem.
A principal barreira percebida por Pequenas e Médias Empresas (PMEs) é a complexidade. Na prática, um inventário simplificado (Escopos 1 e 2) pode ser feito com dados que você já tem. O Programa Brasileiro GHG Protocol oferece ferramentas gratuitas e aceita inventários Bronze (apenas Escopos 1 e 2) como ponto de partida válido.
Passo a passo para PMEs
-
Reuna os dados de atividade
- Contas de energia elétrica dos ultimos 12 meses (consumo em MWh)
- Notas fiscais de combustíveis (diesel, gasolina, GLP, gas natural — em litros ou m3)
- Dados de refrigeração (tipo e quantidade de gas refrigerante, se aplicável)
-
Aplique os fatores de emissão
- Eletricidade: fator de emissão do SIN (Sistema Interligado Nacional), publicado mensalmente pelo MCTI
- Combustíveis: fatores do GHG Protocol por tipo de combustível
- Ferramenta gratuita do Programa Brasileiro GHG Protocol faz o cálculo automaticamente
-
Consolide em tCO2e
- Some todas as fontes de emissão
- Resultado: total de emissões em toneladas de CO2 equivalente (Escopo 1 + Escopo 2)
-
Documente a metodologia
- Período de referência (ano-calendário)
- Fontes de dados e fatores de emissão utilizados
- Limites organizacionais (quais unidades estão incluidas)
-
Publique ou envie ao cliente
- Opção A: Publicar no Registro Público de Emissões do Programa GHG Protocol (credibilidade máxima)
- Opção B: Enviar planilha padronizada diretamente ao contratante
Para processos industriais complexos (química, metalurgia, cimenteira), o inventário pode exigir assessoria técnica especializada. O inventário simplificado descrito aqui e adequado para PMEs com operações de baixa a média complexidade — escritórios, comércio, serviços, logística.
Uma PME com operações simples pode completar esse processo em quatro a oito semanas. O custo com consultoria varia de R$ 8.000 a R$ 25.000 para Escopos 1 e 2 (estimativa de mercado). Com a ferramenta gratuita do GHG Protocol e dados bem organizados, é possível fazer internamente.
Benefícios do inventário de carbono além da obrigação comercial
O inventário de carbono para fornecedores oferece benefícios que vão além de atender a demanda do cliente. Inclui competitividade comercial (674 organizações já participam do Programa Brasileiro GHG Protocol em 2025), redução de custos operacionais pela identificação de ineficiências energeticas, preparação para o SBCE e acesso a mercados internacionais via CBAM.
Key takeaway: O inventário revela ineficiências energeticas que frequentemente pagam o custo do próprio projeto no primeiro ano.
Ter um inventário de emissões não serve apenas para responder ao cliente que cobra. Os benefícios se acumulam:
Competitividade comercial: 674 organizações já participam do Programa Brasileiro GHG Protocol (Ciclo 2025), com crescimento recorde de 25%, segundo FGVces (2025). PMEs que não acompanham ficam em desvantagem competitiva real — não teorica.
Redução de custos operacionais: O inventário revela onde a empresa consome mais energia e combustíveis. Mapear emissões é o primeiro passo para identificar ineficiências. Muitas empresas descobrem oportunidades de economia que pagam o custo do inventário no primeiro ano.
Preparação para o SBCE: Quando o mercado regulado de carbono brasileiro estiver operacional, empresas que já possuem inventário terão vantagem. O SBCE exigira monitoramento de emissões para empresas acima de 10.000 tCO2e/ano (Lei 15.042/2024, Art. 30).
Acesso a mercados internacionais: O CBAM (Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira) europeu já exige dados de emissões incorporadas de exportadores. Fornecedores na cadeia de exportação que não possuem inventário prejudicam toda a cadeia.
Posicionamento para o Relatório de Sustentabilidade: O Inventário de Emissões de GEE é um dos pilares ambientais de qualquer relatório ESG. PMEs que já possuem esse dado podem estruturar seu relatório de forma mais robusta e com menor esforço.
Conteúdo informacional. Este artigo tem finalidade informativa e educacional. A Paloma não oferece serviços de inventário de GEE ou consultoria em gestão de emissões. Preços de EU ETS e dados de exportação referem-se a 2024-2025 e podem variar.
Estruture seu posicionamento ESG com um Relatório de Sustentabilidade
Demonstre gestão ambiental e atenda demandas de grandes clientes com dados organizados.
Ver planos e preçosGRI · IFRS S1/S2 · SASB · ESG Completo
